Comércio é o único setor a fechar vagas em 2026 e varejo tem pior semestre desde a pandemia; reestruturações somam 18 mil desligamentos

O comércio foi o único setor da economia a fechar vagas formais no primeiro semestre de 2026, o varejo registrou o pior semestre de vendas desde a pandemia e…

O dado oficial mais duro sobre a economia real de 2026 está no CAGED, do Ministério do Trabalho: no primeiro semestre, enquanto o país criou 921,6 mil empregos formais, o comércio foi o único setor com saldo negativo, fechando 3.514 vagas líquidas. Não é acidente estatístico: pelo ICVA, indicador da Cielo, o varejo teve queda real de 2,2% nas vendas e fechou o pior semestre desde a pandemia, como registrou o Correio Braziliense. E 2025 já havia terminado com o recorde da série da Serasa Experian em recuperações judiciais: 2.466 empresas, alta de 13% sobre 2024, com o comércio respondendo por 21,7% dos casos.

A conta das reestruturações, empresa por empresa

Somando apenas os desligamentos e cortes de postos confirmados em reportagens, com fonte e data, a onda recente devolveu ao mercado de trabalho ao menos 18,4 mil pessoas: a Casas Bahia fechou 298 lojas e desligou cerca de 1,9 mil funcionários (ND Mais); o Grupo Mateus desligou 6.673 num único trimestre, fechando 28 lojas em seis estados (InfoMoney); a Gerdau cortou cerca de 1,5 mil vagas em 2025 nas usinas paulistas, citando o aço chinês, e encerrou neste mês a aciaria da unidade de Recife, com ~160 demitidos (Diário de Pernambuco); o Bradesco eliminou 2.448 postos e fechou 324 agências em 12 meses, segundo levantamento sindical; a Raízen, em recuperação extrajudicial de R$ 65 bilhões, desativou a usina Santa Elisa com 1,2 mil demissões, segundo a prefeitura de Sertãozinho (Times Brasil); o GPA, dono do Pão de Açúcar, fez ~700 demissões no terceiro trimestre de 2025 e fechou 39 lojas em dois anos (IstoÉ Dinheiro); a Michelin dispensou ~350 ao fechar Guarulhos; o Grupo Toky, dono de Tok&Stok e Mobly, entrou em recuperação judicial em maio com dívida de R$ 1,1 bilhão e cortou 400 postos (15,6% do quadro) em cinco meses (Bloomberg Línea); e os Correios, com prejuízo recorde, desligaram 3.075 pelo plano de demissão voluntária (IstoÉ Dinheiro). Fora da soma, por precisão: a Toyota fechou Indaiatuba (~1.500 empregados) sem demissões unilaterais declaradas, entre transferências para Sorocaba e adesões voluntárias, e ainda investe R$ 11 bilhões no país; a Land Rover parou Itatiaia e deixou 371 vagas com futuro indefinido enquanto a Chery negocia a planta; e a Bombril está em recuperação judicial com dívida de R$ 2,3 bilhões, sem demissões reportadas.

O elo: crédito caro e a conta que chega primeiro no balcão

O padrão dos casos é conhecido: empresa alavancada rolando dívida com Selic de 14% ao ano, margem comprimida e concorrência importada, do aço chinês da Gerdau ao pneu asiático da Michelin. O comércio, que vive de crédito e de consumo das famílias endividadas, é onde essa conta chega primeiro, e o CAGED do semestre mostra que já chegou. O recorde de recuperações judiciais de 2025 é o termômetro; a Serasa registra ritmo um pouco menor até abril de 2026, enquanto o Monitor RGF, por outra metodologia, apontou novo recorde no primeiro trimestre. O agregado positivo do emprego é real e deve ser dito; usá-lo para negar o setor que está sangrando é tão desonesto quanto inventar uma quebradeira que os números não mostram. O eleitor de outubro merece as duas verdades no mesmo parágrafo, e é isso que esta matéria tentou fazer.

Fontes

MTE/CAGED: mercado formal cria 921,6 mil empregos no 1º semestre; comércio com saldo de -3.514 (29/07/2026)

Poder360: Brasil cria 1,28 milhão de empregos formais em 2025, pior saldo desde 2020 (29/01/2026)

Correio Braziliense/ICVA: consumo recua e varejo fecha pior semestre desde a pandemia (08/07/2026)

Serasa Experian: recuperações judiciais atingem 2,5 mil empresas em 2025, maior nível da série (07/04/2026)

ND Mais: Casas Bahia fecha quase 300 lojas e demite 1,9 mil funcionários (14/08/2026)

InfoMoney: Grupo Mateus, após desligamento de 6,7 mil no trimestre (24/05/2026)

Diario de Pernambuco: Gerdau encerra setores da unidade de PE e demite cerca de 160 (05/08/2026)

Bloomberg Línea: Grupo Toky, dono de Tok&Stok e Mobly, pede recuperação judicial (12/05/2026)

Times Brasil: fechamento de usina da Raízen resulta em 1,2 mil demissões, afirma prefeitura (16/07/2025)

IstoÉ Dinheiro: GPA fecha 39 lojas em dois anos e acumula dívida bilionária (11/03/2026)

IstoÉ Dinheiro: Correios fecham PDV com 3.075 adesões, 30% da meta (08/04/2026)

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